Tripes (Frankliniella occidentalis) em Cannabis sativa

Tripes (Frankliniella occidentalis) em Cannabis sativa” por Augusto Grower e Fernando Santiago

As pragas agrícolas são importantes problemas fitossanitários em plantas cultivadas, as quais frequentemente geram perdas significativas ao produtor. Nesse sentido, é essencial identificar e conhecer o inseto ou até mesmo aracnídeo que está atacando a Cannabis sativa. Após a correta identificação, através da presença dos insetos no local de cultivo e/ou sintomas causados, se faz necessário entrar ou não com o controle, pois dependendo das condições, os insetos se reproduzem de forma acelerada e exponencial.

Umas das pragas mais incidentes e preocupantes na cultura da Cannabis sativa é o tripes. Os Tripes, pertencentes à ordem Thysanoptera, são insetos pequenos (geralmente de 1 a 2 mm), com corpo estreito, apresentando dois pares de asas franjadas e aparelho bucal sugador-raspador (formado por três estiletes – utilizados para alimentação) (Figura 1). São insetos que sugam a seiva das flores, folhas e frutos*. Esses insetos geralmente vivem sobre as folhas, brotos foliares, brotos florais e em inflorescências de C. sativa.

A planta por apresentar flores densas e compostas (várias flores agrupadas), favorece o desenvolvimento e reprodução do inseto na época de floração, sendo um período crítico da cultura. Ainda não existem muitos relatos sobre os tripes serem vetores de patógenos para Cannabis sativa, mas em outras culturas, os tripes podem ser vetores “especialmente” de vírus de plantas, como exemplo o Tospovirus: Tomato spotted wilt virus (TSWV)/Vira-cabeça do tomateiro em tomate (Solanum lycopersicon). 

*Particularmente em Cannabis sativa, os frutos são denominados aquênios (frutos indeiscentes, onde as sementes estão envolvidas pelo fruto, onde o tegumento/“casca” da semente não se separa do fruto aquênio. 

Tripes na Cannabis sativa
Figura 1. Estádio adulto de tripes. Na cultura da cannabis (Cannabis sativa), a principal espécie relatada é a Frankliniella occidentalis.

Tripes em Cannabis Sativa

As condições ideias para o crescimento populacional dos tripes estão relacionadas principalmente a temperaturas altas, onde acima de 25 °C é ótimo para o pleno desenvolvimento do inseto. Quanto ao ciclo de vida dos tripes, costuma se completar por volta de 13 a 15 dias, iniciando com os ovos.

Decorridos alguns dias, após a eclosão do ovo, surgem as ninfas/juvenis, que se distinguem das adultas, pois têm coloração mais clara (normalmente branca, amarelada ou bege-clara) e não possuem asas. Antes dos tripes se tornarem adultos, existe a fase de pré-pupa e pupa (metamorfose incompleta) e finalmente o indivíduo se torna adulto e com asas, estando apto a reproduzir (forma sexuada ou assexuada/partenogênese**), onde cada fêmea pode colocar por volta de 75 ovos (Figura 2). 

*A reprodução por partenogênese/assexuada (formação de embrião sem fertilização) é marcada pela não-necessidade de indivíduos machos. No caso dos tripes, as progênies partenogenéticas geralmente são indivíduos machos.   

Tripes na Cannabis sativa
Figura 2. As 6 etapas do ciclo dos tripes: 1 – ovo; 2 – ninfa de primeiro instar; 3 – ninfa de segundo instar; 4 – pré-pupa (fase relativamente imóvel); 5 – pupa (fase relativamente imóvel); 6 – adulto (presença de asas). Dependendo do estádio do inseto, existe a alimentação ou não de tecido vegetal, onde: 2 e 3 alimentam; 4 e 5 não alimentam; 6 alimenta.
Tripes na Cannabis sativa
Figura 3. (A) – forma adulta de Frankliniella occidentalis; (B) – ninfas de 1º e 2º instar e indivíduo adulto.

Os sintomas e danos causados pelo ataque dos tripes podem ser variados, mas o principais são: lesões em sentido longitudinal, formando “estrias curtas”; como são insetos sugadores e raspadores, com o tempo os tecidos foliares “raspados” ficam com a aparência “prateada” ou “esbranquiçada”; dependendo da infestação e do estádio em que houver o pico populacional do inseto, pode ocorrer a destruição de inflorescências, gerando aspecto de queimadas ou abortadas; as inflorescências atacadas podem ficar com aparência avermelhada, evidenciando a morte generalizada dos pistilos (Figuras 4, 5, 6 e 7). 

Figuras 4, 5, 6 e 7. (A), (B) e (C): Lesões com coloração “prateada” (sintoma característico), ocasionadas por intensa raspagem de tripes; (D): presença de tripes na nervura central do folíolo. Strain: Blueberry (80% Indica) – DJ Short ® (breeder/melhorista).Créditos de Imagem: Augusto Grower & Fernando S, F (2022).
Tripes
Figura 8. Indivíduo isolado de tripes. Strain: Blueberry (80% Indica) – DJ Short ® (breeder/melhorista). Créditos de imagem: Augusto Grower; Fernando S, F & Diego F (2022)
Figura 10. Danos diretamente nas flores, ocasionados por tripes. A inflorescência da direita inferior foi menos atacada, enquanto que as outras tiveram maior concentração de danos, com vários pistilos queimados. Strain: São Fernando Valleys®/LatitudSur. Créditos de Imagem: Fernando F, S (2021)

O controle do inseto se baseia na integração de estratégias, como as seguintes: 

  • Conferência de clones advindos de outros cultivadores, que serão introduzidos no grow, pois apenas um clone infestado com os tripes será suficiente para aumentar a população do inseto, disseminando para todas as plantas. Caso existam salas próprias de “Jardim Clonal”, adotar as mesmas medidas de controle;
  • Observar se existem outras plantas hospedeiras próximas às plantas de C. sativa (pontes verdes); 
  • Utilização de óleo-de-neem. Se o produto for utilizado na época de floração, é preciso “limpar” posteriormente o excesso de óleo dos buds; 
  • Utilização de H2O2 (água oxigenada) tanto em estádios vegetativos e floração. É importante salientar que a dose de água oxigenada deve ser a recomendada, para evitar a queima de flores, como exemplo. 
  • Utilização de sabão de potássio (composição: água + lipídeos/gordura + hidróxidos de potássio). É um produto biodegradável e ecológico, devendo ser diluído em água, em uma proporção de 1 ou 2% de sabão para o total de água; 
  • Utilização de terra diatomácea (possui aproximadamente 95% de sílica) na superfície do solo. É um pó natural e abrasivo contra os insetos, pois possui bordas afiadas e microscópicas. A ação do produto no inseto ocorre por ingestão e contato, destruindo a queratina (proteção do exoesqueleto do tripes), onde acaba por afetar a  respiração,  digestão  e  reprodução. É válido ressaltar que a medida é mais eficiente contra formas juvenis do inseto, que podem estar presentes no solo, como os estádios de pré-pupa e pupa; 
  • Utilização de óleo cítrico (adjuvante) nas folhagens e inflorescências (Figura 11);
  • Pode ser utilizado o controle biológico, através dos ácaros benéficos: Amblyseius montdorensis, Amblyseius barkeri, Amblyseius cucumeris e Amblyseius degeneraus (Figura 12). O percevejo benéfico Orius insidiosus também é um eficiente predador de tripes (Figura 13).  
  • Em plantas mais desenvolvidas, pode ser um pouco difícil detectar os tripes. Porém, em plantas mais jovens, é mais fácil encontrar a presença dos insetos;
  • O pico populacional do inseto é na época de floração. Portanto, os cuidados devem ser redobrados nesses estádios; 
  • Caso ocorra intensa infestação na floração, pode ser necessário realizar uma adubação de manutenção, para tentar amenizar os danos e promover a formação de novas flores (dependendo do estádio) e engordar as restantes. Exemplo de fertilizante para a retomada da “engorda” de buds: Dry KoolBloom®; 
  • Realizar limpezas periódicas do ambiente de cultivo; 
  • Avaliar periodicamente se não existem ovos, ninfas, pupas e adultos de tripes; 
  • O tripes não é uma praga de fácil constatação no início. Portanto, a instalação de armadilhas adesivas azuis no grow pode ser uma boa medida, gerando detecção preventiva da presença dos tripes, antes que ocorra uma alta infestação; 
  • Dependendo da população e a falta de medidas de controle, as perdas em produtividade de flores podem chegar a 50%; 
  • O tripes pode ser visto a olho-nu, mas para um maior detalhamento, pode ser utilizada uma lupa conta-fios (aumento óptico – 10x); 
  • Pode ser necessário verificar se as tubulações pertencentes ao grow não possuem a presença do inseto;
Figura 11. Utilização de spray-foliar a base de óleo cítrico para controle do inseto. A aplicação deve ser realizada tanto nas faces abaxiais quanto adaxiais dos folíolos e também nas inflorescências Créditos de Imagem: Augusto Grower & Fernando S, F (2022).
Figura 12. Ácaro benéfico predando tripes.
Figura 13. Percevejo benéfico Orius insidiosus, predador natural de tripes.

Referências Bibliográficas

ABREU J., H. (1998) Práticas alternativas de controle de pragas e doenças na agricultura: coletânea de receitas. Campinas: EMOPI, PP. 112. 

ALLEN, J., L. (1908) The reign of law, a tale of the Kentucky hemp fields.  Macmillan Co., N.Y., PP. 290. 

EDUARDO, R.; HICKELJEAN-PIERRE, H., J. (1998) Thrips associated to nectarine blossom in Santa Catarina State. An. Soc. Entomol. Bras. 27 (2)

GONÇALVES, P., A., S. (1997) Flutuação populacional de tripes, Thrips tabaci Lind., em cebola em Ituporanga, Santa Catarina. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v.26, n.2, P. 365 – 369. 

GONÇALVES, P., A., S.; WERNER, H.; DEBARBA J., F. (2004) Avaliação de biofertilizantes, extratos vegetais e diferentes substâncias alternativas no manejo de tripes em cebola em sistema orgânico. Horticultura Brasileira, Brasília, v.22, n.3, P. 659 – 662. 

MCPARTLAND, J., M. (1996) Cannabis pests. Journal of the International Hemp Association 3(2): 49, P. 52 – 55. 

STRATII Y., I. (1976)  Hemp and the Colorado beetle. Zashchita Rasteniî 5:61.  Vance J.M., 1971.  Marijuana is for the birds. Outdoor Life 147(6):53-55, P. 96 – 100.

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