Fenologias personalizadas do cultivo Sensimilla de Cannabis sativa

“Fenologias personalizadas do cultivo Sensimilla de Cannabis sativa” por Vítor Grower e Fernando Santiago.

O estudo da fenologia de uma planta permite conhecer os diversos estádios e assim entender e planejar cada etapa do ciclo. Muitos cultivadores já possuem sua própria vivência e padronização quanto a essas fases.

Porém o ciclo da planta pode ser apresentado de forma mais fundamentada e científica, havendo uma modelagem dos estádios vegetativos e de floração, espelhando como exemplo na escala BBCH (Biologische Bundesantalt, Bundessortenamt e Chemische Industrie – Alemanha) e também em escalas fundamentadas e simplificadas para a produção de grandes culturas, como soja (Glycine max), feijão (Phaseolus vulgaris) e milho (Zea mays).

A escala fenológica é fundamental para tecnificar o cultivo, pois auxilia no ajuste dos momentos ideais para os tratos culturais e além de indiretamente melhorar a troca de conhecimento e experiência entre cultivadores e pesquisadores, pois existindo a noção do estádio em que a planta se encontra, é possível entrar ou não com intervenções, como exemplos: momento correto de adubação; controle de doenças e insetos; alteração de fotoperíodo; retirada de clones; momentos de polinização; momento de indução de hermafroditismo; flush; podas (ex: topping; poda de limpeza); treinamentos (LST, Scrog, SOG) entre outras.  

Os princípios básicos de escalas são identificar e descrever características morfológicas das fases fenológicas. Como requisito geral, a menos que seja indicado o contrário, apenas os órgãos da parte aérea são considerados, onde o sistema radicular e seu crescimento (com exceção da radícula) não são citados nas sequências de estádios.

Também é importante ressaltar, que dependendo da subespécie e cultivar, os estádios podem ocorrer de forma simultânea, como plantas de crescimento indeterminado (surgimento concomitante de meristemas florais e foliares). 

O ciclo da Cannabis sativa pode ser separado em estágios principais de vegetativo e de floração, como: emergência; desenvolvimento de folhas; formação de brotos laterais; crescimento do caule; floração (início da formação de botões florais; abertura de flores; enchimento de flores; maturação dos tricomas glandulares).

Em escalas convencionais, é considerada a produção de sementes, onde as etapas finais estão relacionadas com o enchimento e maturação dos frutos aquênios (indeiscentes). Entretanto, como o grande objetivo de muitos cultivadores é a produção de flores, a troca de maturação de sementes por maturação de flores na escala fenológica gera direcionamento teórico e prático para os cultivadores do conhecido “Cultivo Sensimilla”. 

Fenologias personalizadas do cultivo Sensimilla de Cannabis sativa
Fenologias personalizadas do cultivo Sensimilla de Cannabis sativa
Escala 1. Estádios fenológicos da Cannabis sativa, separados por vegetativo e floração (Adaptação da escala BBCH).

* baixo amarelecimento de folhas e brácteas (fan-leaves);

** médio amarelecimento de folhas e brácteas (fan-leaves);

*** alto amarelecimento de folhas e brácteas (fan-leaves); 

2 O enchimento de flores está relacionado à hipertrofia de células (aumento do tamanho das células), gerando a densidade final das flores. O ponto ideal da colheita está correlacionado com três fatores: coloração dos tricomas; coloração dos pistilos; diminuição do “comprimento dos pistilos” e aumento dos cálices florais; 

3 A maturação de terpenos (metabólitos secundários) ocorre anteriormente a maturação dos cannabionóides (metabólitos secundários); 

4 A planta geralmente intensifica a produção de THC nas últimas duas semanas, não sendo raro o incremento de 5% para mais de 20% nesse período de finalização do ciclo;  

  • Na adaptação BBCH, a alcance do enchimento final das flores é mensurado de forma mais minuciosa, porém a maturação pode atingir etapas em que não é possível distinguir em variações de 10 em 10% de enchimento. Nesse sentido, pode ficar mais prático seguir a padronização de grandes culturas, onde a variação fica em intervalos de 25% (Escala 2);  
  • A maturação e coloração dos tricomas depende de vários fatores, como: genética da planta, solo, intensidade luminosa, nutrição, estresses, entre outros. Dessa forma pode ocorrer maturação antecipada ou tardia e até mesmo maturação com bastante desigualdade entre os tricomas. 
Cannabis sativa
Escala 2. Estádios fenológicos fundamentados em grandes culturas, onde V: vegetativo e R: reprodutivo (floração).

Alguns estádios vegetativos e reprodutivos de acordo com a Escala Fenológica 2

Cannabis sativa
Figura 1. (A): vegetativo cotiledonar (VC); (B): vegetativo unifoliado (V0); (C): primeiro nó multifoliado (V1). Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).
Cannabis sativa
Figura 2. (A): Vegetativo cotiledonar/resquícios do cotilédone (VC); (B): Vegetativo unifoliado (V0); (C): primeiro nó multifoliado (V1); (D): segundo nó multifoliado (V2); (E): terceiro nó multifoliado (V3 … Vn – enésimo nó vegetativo). Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).
Figura 3. (A): Planta fêmea em V0 (nó multifoliado), esse nó primordialmente “solta” uma folha de único folíolo (unifoliada). Posteriormente, vem novas brotações na inserção do nó, como evidenciado na imagem. Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).
Figura 4. (A): Planta em V3 (terceiro nó vegetativo). É possível notar que foi realizada uma poda Topping/Fim nesse nó, gerando duplicação de meristemas foliares (engalhamento/lateralização da arquitetura), onde futuramente (após a flipagem da planta) irão surgir meristemas florais (aumento da quantidade de Bud´s). Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).
Figuras 5 e 6. (A) e (B): Planta em R1 (primeira abertura de inflorescência com o aparecimento do par de estigmas/pistilos). Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).
Figura 7. Planta em R2 (Floração parcial). Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).
Figura 8. Planta em R3 (pleno florescimento). Ancestralidade da Strain Blueberry (80% Indica): DJ Short ® (breeder/melhorista). A strain foi melhorada (adaptada) de forma autoral para a região edafoclimática 304. Créditos de imagem: Vítor Grower & Fernando F, S (2022).

As escalas descritas no texto são “personalizadas” (como citado no título), envolvendo técnicas de cultivo e conhecimento dos autores (propriedade intelectual do Kunk Club®). Entretanto, se mencionadas, devem ser devidamente referenciadas.  

Referências Bibliográficas

HACK  H., BLEIHOLDER  H., BUHR  L., MEIER  U., SCHNOCK-FRICKE  U., WEBER  E., WITZENBERGER  A. (1992) Uniform coding of the  phenological developmental stages of monocotyledonous and dicotyledonous plants, BBCH scale, general. News Sheet of the German Plant Protection Service. Vol. 44(12). P. 265 – 270

MARTINELLI T., GALASSO I. (2011) Phenological growth stages of Camelina sativa according to the extended BBCH scale. Annals of Applied Biology. Vol. 158. P. 87 – 94.

MEDIAVILLA V., JONQUERA M., SCHMID-SLEMBROUCK I., SOLDATI A. (1998) Decimal code for growth stages of hemp (Cannabis sativa L.). Journal of the International Hemp Association. Vol.  5(2). P. 68 – 74.

MEIER U., BLEIHOLDER H., BUHR L., FELLER C., HASK H., HESS M., LANCASHIRE P. D., SCHNOCK U., STAUSS R., VAN DEN BOOM T., WEBER E., ZWERGER P (2009) The  BBCH system to coding the  phenological growth stages of plants – history and publications. Journal für Kulturpflanzen. Vol. 61(2). P. 41 – 52.SERGEY MISHCHENKO S., MOKHER J., LAIKO I., BURBULIS N., KYRYCHENKO H., DUDUKOVA S. (2017) Phenological growth stages of hemp (Cannabis sativa L.): codification and description according to the BBCH scale, Institute of Bast Crops of NAAS of Ukraine, P. 31 – 36.

Deixar uma resposta